Saudações

A todos que viajam pela primeira vez nos tranqüilos e incomensuráveis rios da Literatura, Música e Cinema, sejam bem-vindos. Espero que gostem dos textos; alguns são textos acadêmicos, outros pura literatura, se assim considerarem o que escrevo como literatura. Pretensão à parte, desejo que sejam bem recebidos pela pena que uso nessa nova imersão em que me atiro.

domingo, 10 de junho de 2012

Loucura

LOUCURA
O dia amanhece, pensa-se que será um dia como outro qualquer. Sai-se de casa rumo à escola, lugar onde se trabalha arduamente, máquinas de fabricar o controle pedagógico, fabrica do controle ideológico das pequenas cabeças ávidas pela liberdade que o "estatus quo" privilegia.
O "11 de setembro" jamais será apagado das memórias ocidentais e, com certeza, será celebrado em lares mulçulmanos como o natal dos cristãos, o ressurgir de uma consciência da pós-modernidade.
Talvez o ato seja uma afronta ao modelo vingente, da segurança pedante do ocidentalismo; não que houvesse uma "belle epoque" neossecular , todavia, um soco na bárbarie invertida da cultura daqueles que podem, porque assim o são atribuídos pela mídia e pelo capital.
Um gesto de descontrole dentro do cinema ou um protesto à cultura de massa que fabrica e ressurge os "Rambos" e os "Capitães Nascimentos", dezenas de pessoas feridas e mortas, um estudante de medicina, que a princípio estudava para salvar vidas, ou talvez, desfilaria na indústria da beleza "urbanite". Um ato de loucura que é visto como um tresloucamento subjetivo e isolado dos tablóides, sem o alarde reflexivo, a não ser as leituras policianescas de domingo que clamam por justiça.
O domingo passa e a loucura, insanidade que permite o isolamente de uma razão, razão que destila outra imagem do real, segundo Kant. A loucura torna o indivíduo dono da própria consciencia, dono de uma razão que o deixa alheio aos valores da sociedade, alheio ao que socialmente é correto, moral e ético.
Para Nietzsche, a loucura aproxima o indivíduo dos deuses, aos artistas que criam em genialidade, é a consciência necessária de uma sociedade que teima em padronizar as paixões, em reprimi-las, a fala do bêbedo na praça é reveladora da hipocrisia que mascara as relações humanas, agir de maneira tresloucada em certas situações atenta para a real situação da insanidade e da bárbarie em que se encontra o homem moderno. Não somos tão diferemtes dos animais que vasculham o lixo para o alimento que sobra das mesas mais requintadas da socialite global.
Ratos que escoam pela penúria do descaso com as crianças, velhos e doentes mentais que por mais que sejam doentes, possuem um visão de mundo muito mais construída do que destruída pelos valores a eles herdados.
A loucura, segundo Nietzsche, é um plano revelador de um saber que de certo torna-se fatal, por outro lado, a loucura consiste na necessiade de revelar os instintos essenciais à sobrevivência do sujeito. Interessa, portanto, que o individo continue sendo sujeito e não objeto de uma vontade social, revela, pois, a vontade como denúncia de um sociedade controladora.
Aqueles que ousaram revelar a verdade de uma sociedade foram vistos como loucos, justamente para desfazer a crença da realidade escusa que se oculta pelo jogo de espelhos sociais.
Na novela "Watchmen" de Alan Moore, há um personagem, Rorschach, que "é um psicopata às avessas, considerado o terror do submundo e um fugitivo da justiça". Dentro dessas características, o persoangem é a consciência de uma trama que se revela absurda, mas verdadeira. Busca a verdade por trás de um crime, porém, o que encontra é uma conspiração internacional, feita pelo ex-herói Ozymandias (Adrian Veidt) para salvar o mundo da aniquilação nuclear.
Rorschach é morto após saber da verdade que atribuia os ataques às grandes cidades, como ação do Dr. Dr. Manhatan, um semi-deus, pois, nesse ínterim, os fins justificam os meios.
A voz do louco-psicopata Rorschach é a voz da verdade por trás da trama de uma busca de paz, mesmo sob a morte de milhões de pessoas. A HQ dialoga com o pensamento nietzscheano de que a loucura é uma consciência que deve em algum momento ser calada.
As novas ideias são reveladas pela fala do louco, que visualiza aquilo que está além da compreensão do homem-médio, assim foi Einstein, Galileu, Newton, Sócrates e Nietzsche, entre outros.
Não quero com isso justificar o crime "quase" como resultado da cultura imagética da arma hollywoodiana ou o atentado como sendo um ato de verdade e aceitá-lo como forma de resistência ao imperialismo americano, mas esses gestos, guardados os contextos, revelam que algo está errado na sociedade das câmeras, da internet, da comunicação imediata, que torna o cinema um veículo de verdades e ideologias, numa sociedade que aceita o sacrifício de uns em prol de outros; a cúria católica condena milhares de africanos à morte em nome da fé, do dogma.
O utopismo da fé que salva a alma e condena o corpo, como disse Ferreira Gullar em artigo na Folha de São Paulo: "Em que se baseia a razão e a loucura?" "Qual é o parâmetro de sê-lo esse ou aquele?"
A dor dos loucos não deve ser menor que a dos sóbrios! Caso seja, deixe que o esquadrão da morte resolva, pois cabe a eles fazerem o serviço sujo que a sociedade não quer ver em suas portas. " A morte do leiteiro" não mancha mais o leite das nossas crianças, bebe-se o rosa dessa conjunção lácteo-sanguínea que o amanhecer oferece. Depois dizem que o vampiro é Nosferatu.
Autor: Erivaldo dos Santos

2 comentários:

Anônimo disse...

Olá professor...tudo Ok??
então...estudei contigo no Liceu uns anos idos aí...sei lá quantos...Legal seu artigo..curti mesmo...ainda mais agora fazendo filosofia..
quanto a loucura...já leu o Elogio da Loucura do Erasmo???tantas citações e essa não??
parabéns também pelo seu conhecimento eclético....de Kant a Watchmen...
e só...
PV

Eri disse...

Obrigado pelo elogio, mas gostaria de saber quem é você, pois, fiquei curioso em saber que tive um aluno que hoje faz filosofia. Quanto ao Elogio à Loucura, eu o tenho, mas não tive tempo de ler, principalmente porque defendo a minha tese em outubro e estou todo enrolado. Abraços!!