Saudações

A todos que viajam pela primeira vez nos tranqüilos e incomensuráveis rios da Literatura, Música e Cinema, sejam bem-vindos. Espero que gostem dos textos; alguns são textos acadêmicos, outros pura literatura, se assim considerarem o que escrevo como literatura. Pretensão à parte, desejo que sejam bem recebidos pela pena que uso nessa nova imersão em que me atiro.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Encontros

O trem partiu empoeirado, palavras ficaram no nó da garganta. Um gosto de incerto invadiu-lhe o paladar. O semblante pesado ameaçava a inércia momentânea, o guarda-estação aproximou-se lentamente, escutava-se o seu respirar pesado, cansado. Atrás de si, a vasta multidão que se esvaia, acenava devorar os poucos instantes de vida. Passageiros vagavam com malas nas mãos, um forte cheiro de café adocicado zombou-lhe as narinas, descuidado espiou sobre os ombros, a plataforma avilta-se num vazio. O olhar gordo do guarda era a companhia e sombra. Declinou-se sobre o banco enferrujado, ponderou languidamente. Largou-se pesado, a sombra esboçara um aceno com algumas palavras " está tudo bem"-"posso ajudar-te?" A boca ressecou-se de repente, os lábios arroxearam numa morbidez de dar dó. Pálido, branco, esboçara uma avidez e face sem coloração, nenhum sangue ousasse passar. Não distante ali, o olho gordo expulsava para fora do globo ocular o espanto e os cuidados.
Primeiro, abriu-lhe o peitoril de camisas alvas. Segundo, limpava das barbas uma espuma lamacenta e viscosa que lhe subia goela a fora, a mancha todos os fios do bigode ralo, terceiro, decidiu pegar água com açúcar; sentiu-lhe o pulso, ousou ouvir o coração. Não era médico, fizera os primeiros socorros. A pele quase porcelana ganhava cor rubra qualquer, lívida e pequena.
A cabeça já não mais pendente para trás, nos braços corriam-lhe o sangue, ergue-se; sacudiu os braços, olhou paradamente para aquele sujeito sem expressão, chamam-no de sombra, sempre com mesuras e cuidados excessivos dos ricos passageiros dos vagões de primeira classe.
Lúcio era pequeno quando o pai o levava pela primeira vez à Estação da Luz. Ficava admirado com a estrutura, o ferro, o relógio, o ir e vir daquele povo apressado. Ficava muito tempo devorar as velhas memórias, revirando para ver se encontrava algo semelhante. O tempo agulha gira pelos seus olhos.
O vulto acenava dizendo era obrigação, que não precisava de qualquer gratificação; mas Lúcio que até então não havia entendido o desfecho da saga particular. Meteu a mão no bolso e sacou de umas poucas notas, valor miúdo em relação ao ato desferido pelo intruso na situação.
O guarda insistentemente gesticulava, fechava os olhos, girava a cabeça em uma negativa não muito convincente, todavia com a face de súbito, revela que aceitaria de bom grado qualquer que viesse.
Lúcio tirara dez notas das que fazem adulto agir como criança, mostrou para o seu anjo articular pensava consigo "quem poderá dizer que não foi um enfarto". Minha vida vale mais.
Mãos esticadas viram-se, abre um olho após o outro, quase que guiado pelo cheiro das cédulas mão esquerda após a direita, porém num instante, suspende a energia dos gestos. Reconta-as paulatinamente, decide das dez entrega-lhe duas pelas pontas dos dedos.
Pensa- "Jamais irá saber o que fazer com tanto dinheiro."
Simultaneamente, o guarda-estação, imagina trocando a boneca da filha; saindo com a mulher num domingo para um refresco no jardim da luz, levar o pequeno na Pinacoteca para ver uns quadros...


Desatino sábio
do silêncio da espera,
o tique-taque rasgante,
o roçar de unhas na mesa.
Cada suspiro à espeita
de um olhar.
talvez instante em que se largue
não seja palavra contida,
apenas a nuvem que filtra
o vento na cortina,
dobre galhos, telhas
rumor e grito.
Esta feminilidade narrativa
que a poesia desconhece
descobre os próprios caminhos
na Ilíada suburbana desvairada.
odisseu se perdeu
nos trilhos do trem.
às espadas,
à pólvora chinesa
em bairros do leste ao sul.
Uma capital sangrenta
descreve a lápide trancada;
marcas criptográficas dos dedos sujos a nanquim.
são pequenas correções em umas poucas linhas.
"Desculpe-me, isso não é uma carta de amor"