Saudações

A todos que viajam pela primeira vez nos tranqüilos e incomensuráveis rios da Literatura, Música e Cinema, sejam bem-vindos. Espero que gostem dos textos; alguns são textos acadêmicos, outros pura literatura, se assim considerarem o que escrevo como literatura. Pretensão à parte, desejo que sejam bem recebidos pela pena que uso nessa nova imersão em que me atiro.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Moderno: Cinema e História

O moderno é igual à revolução ou à revolta?
Professor Erivaldo dos Santos- mestrando em Crítica Literária PUC-SP

A arte, quando acuada pela Revolução Industrial, lança-se na busca de seus princípios fundamentais e fundantes, ou seja, de sua essência, de sua nova identidade. Percurso que impele para o neolítico e para abstração - pólo a ser privilegiado. (Ana Cláudia Oliveira)


O que é Moderno? A modernidade está fadada ao envelhecimento? É o modernismo vigente o glamour das passarelas?
O presente trabalho visa estabelecer um nexo de sentido entre três campos de conhecimento humano, a saber: história, cinema e literatura. Para tanto, optou-se pela leitura das seguintes obras como suporte teórico a “Vanguarda Européia e modernismo Brasileiro” de Gilberto Mendonça Telles, “Michelet e o Renascimento” de Lucien Febvre.
Inicia-se o presente trabalho observando o que Febvre diz sobre o historiador Michelet e a Renascença, apresentando o conceito de moderno como uma etiqueta para rotular o período que sucede a Idade Média; para ele, o epíteto moderno não passa de um joguete lingüístico, cuja definição é meramente adaptável ao tempo e espaço e à conveniência:
“Moderno, para o geólogo, começa com o aparecimento do homem sobre a terra...”, para “arquitetura moderna: é dito de todos os gêneros da arquitetura em que tem estado em uso no ocidente a partir do começo da Idade Média (...)”.
Como se vê, o termo moderno para Lucien é um vocábulo anacrônico, portanto, flutuante, no que diz respeito às definições temporais.
É evidente que o marco para o espírito da ciência é o Renascimento, porém, o próprio nome depõe contra o conceito de “moderno”, pois é o conjunto de ações tomadoras como modelos da arte, da filosofia greco-romana, logo, a filosofia é redescoberta, o passado clássico é retomado como um mundo a ser reinventado.
A invenção da imprensa por Gutenberg (máquina de tipos móveis, técnica conhecida pelos chineses há quinhentos anos) possibilitou a DIVULGAÇÃO do conhecimento e das novidades. Ocorre uma mudança significativa de um sistema servil para um individualismo, um projeto antropocêntrico que pretendia ser a visão plena da criação de Deus e o centro do Universo, isto é, cabia ao homem definir o seu destino, mostrar sua capacidade criadora, construir um conhecimento empírico sobre o mundo, esse último aspecto contrasta com a proposta de um racionalismo, pois, a explicação para os fenômenos naturais deveria ser dada por uma razão abstrata e intelectual (René Descartes). Ressurgem-se, portanto, os autores clássicos, proibidos de serem lidos ou eram de uso exclusivo dos clérigos católicos: razão e espiritualidade em comum acordo; é verdade que a razão estava a serviço da espiritualidade católica.
Os tais clássicos chegam ao velho mundo junto com a seda, com os tecidos nobres, com os perfumes e especiarias; produtos oriundos do velho Oriente. Eis que anexa ao luxo e à cultura, surge a Idade Moderna (diga-se de passagem, releitura da antiguidade clássica).
A bíblia como primeiro livro impresso e traduzido para as línguas vulgares, possibilitou a leitura por todos, surgindo as heresias, que abalaram o monopólio da fé católica.
A pesar da “democratização” do livro, nem tudo que era novo era bom, dever-se-ia e aceitar sem questionar aquilo que estava escrito, sem a liberdade de expressar o que se pensava.
Os meios de comunicação como rádio, imprensa, televisão e internet devem ser discutidas de maneira salutar, com critério e vigilância para a manutenção da verdade sobre a informação. O aspecto moderno que atualiza o homem num ser global é perigosos na fabricação de pseudoconhecimento, que aliena e conduz o indivíduo a uma ignóbil massificação.
A reforma protestante, dentro de um contexto do que foi a febre do conhecimento luterano, mostra-nos como o aspecto do novo pode conduzir mentes não preparadas à barbárie, à ruína da própria espécie.
A mudança de um espírito religioso, mesmo com o advento científico, não melhorou muito a vida do homem do século XVII. O conflito entre duas formas de conceber o mundo resultaria no que foi chamado pela literatura de Barroco. Uma arte dos contrários: razão em oposição ao espiritual, o material em contraste ao abstrato, ciência contra religião, nesse jogo dialético e antitético consolidaria no século vigente o iluminismo, vitória da razão.
O espírito modernizador e civilizatório destruíram centenas de tribos em todo território do novo mundo, novo para os colonizadores que não reconheciam a soberania dos povos conquistados.
Os jesuítas, que fizeram parte do projeto de expansão europeu, foram logo trocados pelo modelo racionalista do iluminismo. De doutrinadores a perseguidos, juntamente com os índios que insurgiam contra a dominação branca portuguesa e espanhola.
Nesse espaço de tempo cientifico (séc. XVIII), a Revolução Industrial começa na Inglaterra e se espalha por todo o hemisfério norte durante o século XIX e início do séc. XX. Troca-se a produção manufatureira pelo processo mecânico, fundição de ferro em aço doce em grande escala só ocorre em 1870 pelo processo Bessemer. James Watt reprojeta o aparelho de Newcomem (engenho a vapor), ampliando a rotatividade dos motores, produzindo motores a vapor, que iriam gerar energia para todos os tipos de maquinário fabril, locomotiva e navios. Nota-se a velha necessidade do homem de buscar a centelha do fogo roubado por Prometeu e dado aos homens.
Energia, movimento e velocidade eram os temas do novo mundo, um mundo construído sobre uma modernidade que negava o passado. Na literatura, nos primeiros momentos do século XX Marinett, autor do movimento Futurista faz um elogio a essa modernidade que se apresentava:
Manifesto
• Elementos essenciais da poesia - coragem, audácia e revolta.
• “Queremos exaltar o movimento demasiado agressivo, a insônia febril, a corrida, o salto perigoso, a bofetada , o soco.”
• “Glorificaremos a guerra - a única higiene do mundo -, o militarismo, o patriotismo, o gesto destrutivo do anarquista, as belas idéias que matam, o desprezo pela mulher”.
• “Destruiremos museus e as bibliotecas, lutaremos conta o moralismo, o feminismo e toda covardia utilitária”.
• “Declaramos que o esplendor do mundo foi enriquecido com uma nova beleza, a beleza da velocidade”.
A modernidade apresenta-se como algo complexo e devoto à guerra. O elogio à nova estética surge como um alerta ao domínio da tecnologia e de um conhecimento controlado por um estado forte e dominador. Junto com esse cabedal de modernização morre-se a tradição, o mito, elemento a ser destruído pelas escolas, ditas modernas.
Paralelamente a esses movimentos, o cinema desenvolvia a ilusão do movimento, da velocidade. Trata-se do último filme mudo de Chaplin, que focaliza a vida urbana nos Estados Unidos nos anos 30, imediatamente após a crise de 1929, quando a depressão atingiu toda sociedade norte-americana, levando grande parte da população ao desemprego e à fome.
A figura central do filme é Carlitos, o personagem clássico de Chaplin, que ao conseguir emprego numa grande indústria, transforma-se em líder grevista conhecendo uma jovem, por quem se apaixona. O filme focaliza a vida do na sociedade industrial caracterizada pela produção com base no sistema de linha de montagem e especialização do trabalho. É uma crítica à "modernidade" e ao capitalismo representado pelo modelo de industrialização, onde o operário é engolido pelo poder do capital e perseguido por suas idéias "subversivas". Em sua Segunda parte, o filme trata das desigualdades entre a vida dos pobres e das camadas mais abastadas, sem representar, contudo, diferenças nas perspectivas de vida de cada grupo. Mostra ainda que a mesma sociedade capitalista que explora o proletariado, alimenta todo conforto e diversão para burguesia. Cenas como a que Carlitos e a menina órfã conversam no jardim de uma casa, ou aquela em que ele e sua namorada encontram-se numa loja de departamento, ilustram bem essas questões.
Toma-se por base de análise o subtítulo do filme “Uma história sobre a indústria e a iniciativa privada na tentativa de ser feliz”. Fica clara a crítica ao sistema capitalista que quase enlouquece o personagem Carlitos; o homem que se transforma em máquina, aliás, o maquinário da fábrica é gigantesco, as engrenagens literalmente engole o trabalhador, que se submete ao jogo do sistema judiciário para sobreviver, prefere a cadeia à fome das ruas em época de greve. É visível que Charles Chaplin havia lido autores que apontam personagens massacrados pela sociedade, como por exemplo: Victor Hugo em Os miseráveis:
“Após cumprir 19 anos de prisão com trabalhos forçados por ter roubado comida, Jean Valjean é acolhido por um gentil bispo, que lhe dá comida e abrigo. Mas no meio da noite ele rouba a prataria e agride seu benfeitor, mas quando Valjean é preso pela polícia com toda aquela prata ele é levado até o bispo, que confirma a história de lhe ter dado a prataria. Este gesto extremamente nobre do religioso devolve a fé àquele homem. Depois de nove anos ele se torna prefeito de uma pequena cidade, mas sua paz acaba quando um guarda da prisão que segue a lei inflexivelmente tem praticamente certeza de que o prefeito é o ex-prisioneiro que nunca se apresentou para cumprir as exigências do livramento condicional.”
Assim como Jean, Carlitos luta para sobreviver, busca em todas as suas oportunidades a chance de construir o seu ideal: um lar. Frustra-se várias vezes sendo preso infinitamente. Descobre que arte poderia salvá-lo, no entanto, o infortúnio cai-lhe novamente, é forçado a fugir com sua companheira, que juntos sofrem a fome e o relento. A personagem feminina realiza uma das intertextualidades presentes no filme. Dialoga com a cena em que Jean rouba pão e é preso por isso.
Pode-se perceber que a crítica à modernidade é latente, ela enlouquece, aliena e destrói a individualidade humana. Com relação a isso, a cena de abertura de Tempos Modernas é gritante. A sobreposição de imagens de um rebanho de ovelhas à imagem de um grupo de trabalhadores iniciando o dia de trabalho, mostra nitidamente a identificação com o naturalismo de Emile Zola.
Os movimentos repetitivos de Carlitos são uma ironia ao processo industrial desenvolvido por Henry Ford, que se constituí como uma extensão do que foi o taylorismo, processo de produção industrial em série, largamente usado pelas fábricas de automóveis durante a década de cinqüenta nos Estados Unidos.
A imagem que pode resumir a conclusão desse trabalho é retirada da cena final da película de Chaplin: o homem precisa erguer-se e continuar a sua humanidade.
A modernidade envelhece-se, o hoje será o ontem e não será o amanhã (futuro). O homem dessa modernidade é um Heros (conceito grego), busca a realização de um caminho que indique sua individualidade perdida a partir da Revolução industrial.

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